Google+ Followers

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Globo News e a dicotomia "Estado x Mercado": o que está por trás disso?

 
Da série: patriotismo católico!

A "mass media" nos impõe - continuamente - a falsa dicotomia entre mercado e estado. Hoje a Globo News em seu noticiário, repetiu o esquema batido para tentar interpretar a situação do Brasil. Na fala de seus jornalistas tudo que vem acontecendo conosco é culpa do fato de o Ministro do Planejamento do Governo Dilma - o sr. Nelson Barbosa - engessar as "mãos e pés" do Ministro da Fazenda, Joaquim Levy. A versão da Globo News deixa patente o seguinte: economia deve se pautar por critérios puramente econômicos. Qualquer interferência política só pode ampliar a crise. A alegação não resiste a história: foi justamente a interferência política que salvou a economia ocidental de uma crise nos fins do século 19, interferência chamada imperialismo. Depois do crack de 29 foi outra interferência que também impediu o naufrágio da economia ocidental. O problema não está na interferência do Ministro do Planejamento mas sim no governo PT que é incompetente em planejar a curto, médio ou longo prazo. A única receita petista nessa área foi o estímulo ao consumo, meio fácil de obter votos e criar uma aparência de prosperidade. Faltou e falta um plano nacional de desenvolvimento consistente. E não é só ao PT que falta isso: nenhum partido hoje tem um plano desse a oferecer.

É preciso entender que economia é meio e não fim. Assim deve sujeitar-se ao bem da comunidade nacional; não é a comunidade nacional que deve adequar-se a postulados econométricos mas a economia nacional que deve se pautar pelo interesse pátrio. Foi isso, em suma, o que fizeram as potências capitalistas atuais: quando o interesse nacional exigiu fecharam seus mercados e protegeram sua indústria para alavancarem o desenvolvimento interno. Hoje, estes mesmos países, sustentam a retórica da "abertura geral de mercados e fluxos de capitais". E nós compramos o discurso. O que a Globo News nos oferta é a lenga lenga neoliberal- fundada na heresia liberal - que só foi adotada por estas mesmas potências capitalistas - como modelo econômico - depois de anos de keynesianismo  ter fortalecido os seus mercados internos graças a ajuda do Estado. 

Não seria o caso de o Brasil fechar mercado mas o de saber aproveitar o fluxo de capital promovido pelo mesmo para criar uma estratégia nacional. Isso, contudo, só seria possível se houvesse um verdadeiro estadista na cadeira presidencial de caráter antiliberal e anticomunista. Enquanto as pessoas derem crédito a Globo News isto será impossível. 


Rafael G. Queiroz

sábado, 12 de dezembro de 2015

Série Olavo mentiu para mim; episódio 1: Olavo, globalismo e EUA!


Série Olavo mentiu para mim



“Pensamos que é tempo de reagir contra a insanidade da absoluta confraternização que se pretende impor entre o Brasil e a grande república anglosaxônica de que nos achamos separados, não só pela grande distância, como pela raça, pela religião, pela índole, pela língua, pela históriae pelas tradições do nosso povo” - Eduardo Prado. In: A ilusão americana. São Paulo, Ed. Brasiliense, p.7.

Esclarecimento

Toda vez que uma reação contra-revolucionária nasce na Igreja - a única que pode salvar a civilização ocidental - aparecem líderes que capturam essa reação para dentro de movimentos puramente civis que apresentam como problema central a questão política e escamoteiam a raiz teológica-religiosa da crise do ocidente. É o caso de gente que é anticomunista mas pouco antiliberal ou daqueles que são antiliberais mas pouco anticomunistas, ou o dos que opõem EUA x Rússia, ou dos que acreditam totalmente na direita americana, nos eurasianos, etc. Na França, recentemente, houve manifestações de católicos contra a sodomia. O que fizeram? Ao invés de um bispo, cardeal ou leigo católico assumir a liderança quem assumiu foi uma humorista lésbica que embora contra o casamento gay no plano civil é a favor da cultura LGBT. Está dando tudo certo. A dialética judia governa a cabeça dos católicos de hoje. Nosso objetivo é desmontar esta trama diabólica.

Artigo 1 da série:

Olavo, globalismo e papel dos EUA

Uma análise da arquitetura teórica do pensamento olaviano


Introdução

Anos a fio o sr. Olavo de Carvalho vem apresentando os EUA, sua cultura e civilização, como bastiões do ocidente. Em seu debate com Dugin ele repudiou que se classificasse os EUA como a ponta de lança da Nova Ordem mundial.

O conceito do sr. Olavo é que a NOM( Nova Ordem Mundial) vem se efetivando a reboque dos interesses nacionais americanos. Uma elite econômica se valeria das estruturas do Estado americano para impor sua agenda global, que seria inclusive destruidora da identidade americana, dos EUA profundo.

É exatamente esta questão que pretendemos analisar. Olavo tem razão ou mentiu quanto ao papel dos EUA no que tange ao globalismo?

Parte 1- Entrando no labirinto olávico

1.1 A conceituação do sr. Olavo sobre a relação EUA – Globalismo

Anos atrás, o sr. Carvalho ao publicar a obra “ O Jardim das Aflições”, asseverou o seguinte a respeito dos EUA:

“os Estados Unidos vão "unificando e homogeneizando a humanidade, impondo por toda parte suas leis, seus costumes, seus valores, sua língua, e, administrando sabiamente as diferenças nacionais, é elevado à condição de supremo magistrado do universo". O Império, segundo Olavo de Carvalho, é "destituído de convicções teóricas", apoiando, indiferentemente, a revolução ou a reação, a escravatura ou a abolição, o moralismo puritano ou a rebelião sexual, o domínio colonial ou as reivindicações de independência nacional" -- o que lhe importa é assegurar a "marcha ascendente da Revolução Americana" sobre o mundo. Depois de várias tentativas frustradas de restauração do Império Romano por parte de potências européias, César ressuscitou do outro lado do Atlântico. Os Estados Unidos -- afirma Olavo de Carvalho -- são uma "República imperial, capitalista, maçônica e protestante".

Em suma, Olavo afirma categoricamente que os EUA encarnam desde sua independência um ideal imperial; que esse ideal envolve a expansão mundial de uma moral laica, alheia as grandes tradições religiosas; por cima do estado americano opera uma elite iniciática maçônica, a mesma que fundou o estado, se valendo do ideário democrático para estabelecer o domínio de uma nova aristocracia.

O sr. Carvalho, todavia, na obra “Maquiavel ou a confusão demoníaca” de 2011, na página 78, expressou uma posição diferente daquela que, anos atrás, exprimiu a respeito dos EUA:

“Do outro lado o único estado leigo que, aproximando-se do modelo delineado por Maquiavel, isto é , do regime misto aristocrático-democrático, conseguiu instaurar-se com sucesso e durar foram os Estado Unidos. Com uma diferença essencial: o Estado americano, longe de pretender subjugar o cristianismo aos fins mundanos da autoridade leiga, impregnou-se profundamente da influência bíblica e fez da moral judaico-cristã...um dos seus pilares constitutivos”

No Jardim, Olavo ressalta o caráter não cristão e até anticristão desse projeto imperial que se encarna nos EUA. Projeto que, segundo o mesmo, começa na idade média com uma luta entre poder da Igreja – autoridade espiritual – e o poder dos reis e nobres – autoridade temporal ou política – passando pelos absolutismos – que vão buscar a união entre estado e igreja em prol de um projeto “imperial-nacional” ( é o caso do galicanismo francês onde o clero se alinhava ao lado do rei, e onde ele nomeava os bispos, exercendo controle sobre a Igreja) – e, finalmente se transportando para uma nova arquitetura imperial nos EUA, onde César – figura do poder político – dispensa Cristo – ou a Igreja sua representante. Em “Maquiavel”, obra de 2011, Olavo diz que não foi bem isso que se deu. Os EUA teriam, no fim das contas, dado origem a uma síntese entre laicidade e cristandade.

É bem verdade que o sr. Carvalho diz já, no “Jardim das Aflições”, que no momento em que o projeto imperial se traslada para os EUA, ele deixa de ser nacional e passa a ser universal: logo não haveria um “imperialismo ianque”mas sim uma elite imperial que usaria os EUA para forjar a nova ordem global. No conceito que o sr. Olavo desenvolve naquela obra, teríamos de um lado, o povo americano, suas virtudes, seu repositório moral e cristão, e de outro, uma elite maçônica que controla o Estado americano. No conceito que encontramos em sua obra sobre Maquiavel, o Estado – mesmo sujeito a uma aristocracia maçônica - absorve a moral cristã – idéia antecipada de forma germinal no Jardim. E por fim, no debate com Alexander Dugin, Olavo separa a elite globalista e o globalismo ocidental, do poder nacional americano. Assim para Olavo “O Consórcio é a organização de grandes capitalistas e banqueiros internacionais, empenhados em instaurar uma ditadura mundial socialista”.

Ou seja: atualmente Olavo desresponsabiliza os EUA de qualquer culpa pelo globalismo ocidental que seria cria de famílias dinásticas e grupos de poder que nada teriam que ver seja com o Estado, a cultura ou a civilização americana. Esta foi a forma pela qual o sr. Carvalho conseguiu justificar sua adesão à tradição norte americana (em sua versão “tradicionalista” ou de “direita”) e sua distância das principais características da atitude cultural crítica brasileira para com os Estados Unidos. É a partir daqui que começaremos a examinar o diagnóstico do sr. Carvalho.

1. 2 As contradições lógicas da interpretação de Olavo.

A tese olavista é de que com o globalismo ocidental, estaríamos rumando, necessariamente, ao comunismo. E o capitalismo onde fica nisso se é que ele ainda existe? É assim que ele, explica, por exemplo os financiamentos que grande banqueiros e empresários deram, ao longo do século 20, aos países socialistas ou a movimentos socialistas: no fundo eles desejariam estimular o socialismo pois o mesmo traria um mundo de controle do mercado onde só as grandes empresas teriam lugar( pode parecer inusitado mas é isso mesmo que ele diz: até onde sabemos o socialismo visa, nada mais que acabar com o regime de empresa privada; cabe perguntar ao Olavo como nesse mundo futuro visualizado pelos mega-banqueiros e empresários seria possível ir para o socialismo e, ao mesmo tempo, manter, indefinidamente, o setor privado de pé sem as naturais estatizações e coletivizações gerais almejadas pelos socialistas; ademais socialismo não visa apenas controle de mercado mas substituição da empresa privada pela estatal).Racionalizar essa alegação é impossível dada sua incompreensibilidade: seria como dar grana visando ajudar o projeto de quem eu sei que quer usar o dinheiro para me eliminar. Mas na lógica do Olavo ela é perfeitamente factível. Entretanto a lógica segue outras vias: a da não contradição. Olavo, contudo, não costuma dar muito valor a lógica: o que agora é depois pode não ser mais. Foi assim por exemplo com o seu repúdio ao PSDB em 2006 e seu apoio em 2014( Como relatado aqui:http://libertoprometheo.blogspot.com.br/2014/11/sobre-as-previsoes-de-olavo-perguntas.html). Logo para ele capitalismo pode ser, no fundo, comunismo; o rigor científico passou longe.

Portanto as perguntas que devemos fazer aqui são:

A- O consórcio de que fala Olavo, visa mesmo o socialismo? Se não o que ele visa de fato?

B- Este consórcio pode ser desassociado do poder do estado americano?

C- Existe real contradição entre os interesses do consórcio globalista e do estado americano?

D- Existe uma relação intrínseca entre globalismo e EUA? Qual?

É que vamos tentar responder abaixo.


Parte 2 - EUA e a economia global.

2.1 - EUA: síntese de poder econômico e político

A independência dos EUA foi feita, sobretudo, por motivos econômicos. Foi a elite dos produtores rurais e urbanos das treze colônicas que encetaram a luta contra o império britânico em nome da liberdade de comerciar sem interferência da monarquia que impunha, então, novos impostos sobre as treze colônias. Tanto é verdade que foram os grandes fazendeiros e comerciantes que forjaram a constituição americana. Logo, a formação dos EUA está ligada, desde o primórdio, a uma elite econômica que acabou virando, também, elite política. Assim, existe uma imbricação entre político e econômico na formação civilizacional dos EUA. Imbricação esta que antecede, de certo modo, a independência. A chegada dos calvinistas que fugiam da perseguição religiosa na Inglaterra em 1620 nas costas da América do Norte, foi a chegada de uma classe comercial calcada na teologia protestante da riqueza como sinal de predestinação. Foi esta classe que se constituiu como estamento político nos governos locais das colônias do norte. Portanto é fora de dúvida que a fundação dos EUA envolve a mistura perigosa entre interesses econômicos e poder político sendo impossível discernir uma coisa de outra na história americana.

Não foi por acaso que o Estado americano buscou, ao longo do século 19, atender aos objetivos desta elite econômico-política através de ações geopolíticas no Texas, por exemplo, e no resto do Caribe onde buscou impor sua supremacia política contra pretensões européias. Que fique bem compreendido: a política e não a economia é o fator preponderante do poder econômico. Não pode haver poder econômico sem um poder político que o proteja, assegure e até expanda. Isso não significa que o poder econômico não tenha existência própria e até demandas próprias ou um certo grau de autonomia em relação ao político. Significa que ele precisa, necessariamente, se associar ao Estado para locupletar-se.

A guerra de secessão foi mais um capítulo dessa história: foi a vitória de uma elite política nortista articulada a uma elite econômica mais dinâmica que a elite econômica sulista. A vitória do projeto nortista foi a vitória do capitalismo e a derrota do modelo colonial-escravista. Foi esta vitória – feita ao custo de uma guerra sangrenta marcada por expurgos, ataques a população civil, morticínio fratricida e engenharia social – que consolidou o “mercado nacional americano” e o entregou ao controle dos investidores do norte. Antes dela os EUA não eram, efetivamente um mercado. A escravidão e o modo de vida sulista impediam a imposição de um modelo industrial-urbano a todo o país e, consequentemente, a existência de um mercado para a produção fabril. Foi preciso fazer uma guerra para efetivar uma forma de economia. Mais uma vez os interesses políticos-econômicos se mostraram completamente imbricados no processo histórico americano.

Foi nesse quadro que se destacou a figura de J. D. Rockefeller. Segundo Daniel Yergin em “The prize: the epic quest for oil”:

“ A standart oil de Rockeffeler funcionava segundo a ânsia incontida do capitalismo do fim do século 19 e criou uma nova era pois se transformou em uma das maiores e mais importantes corporações multinacionais do mundo”.

J. D. Rockefeller

A Standart Oil foi, portanto, o grande modelo de companhia multinacional da época. Rockeffeler não foi apenas um milionário do petróleo: ele criou um modelo de economia que mudaria o mundo. Além da Standard de Rockefeller, em 1901 surgiram dois concorrentes: a Gulf Oil Co. e a Texas Oil Co. (Texaco). A Gulf pertencia a Andrés Mellon, ex-Secretário do Tesouro e ex-Embaixador dos EUA em Londres, o que facilitou a expansão mundial do truste. Nos EUA sempre foi comum que políticos se valham de sua posição privilegiada para ter acesso as fontes de riqueza, assim como empresários se valham de seu poder para manietar os políticos. A caso da formação da Gulf e da ascensão metórica de Rockeffeller, deixa isso evidenciado. A Standard utilizou, sistematicamente, a compra de parlamentares e tribunais, o que, mesmo assim, não evitou algum aborrecimento (como o pagamento de pequenas multas e outras penalidades); quando se tratava de explorar outros países, o apoio do governo norte-americano não lhe foi negado. Embora a Standart tivesse vez ou outra problemas com o governo americano por causa da monopolização do mercado interno, sempre lhe foi facultada a ajuda para monopolizar o mercado em outros países. Foi com esta ajuda que na Venezuela, a Standard apresentava-se como Creole Petroleum, e, em 1960, esta contribuiu com um terço dos lucros do conglomerado (205 milhões de dólares). Na Colômbia, adotou o nome de Tropical Oil, e tinha em mãos a principal zona produtora; no Canadá, a Imperial Oil controlava 17% da produção nacional. Na Arábia Saudita, a produção nacional era monopolizada pela Aramco (Arabian American Oil Company), um consórcio de trustes, e a Standard tinha 30% de seu capital. Ainda nessa região, controlava 20% do capital da Irak Petroleum, que nos anos 50 conseguiu lucros anuais da ordem de 200 milhões de dólares.

O Conselho Nacional de Petróleo norte-americano (National Petroleum Council), criado em 1946, assegurava uma ligação com o governo. “Único ‘lobby’ representativo dos interêsses privados de caráter oficial”, seus membros eram indicados pelo American Petroleum Institute e pagos pelas companhias que empregavam e os fizeram seus delegados ao mesmo tempo”. Charles Hughes, candidato derrotado à presidência dos EUA em 1916, presidente da Suprema Corte e secretário do Exterior, foi, à sua época, o principal conselheiro jurídico da Standard. No governo de Eisenhower, um cunhado de Rockefeller e presidente do Chase National Bank, Winthrop Aldrich, foi nomeado embaixador em Londres em 1952 , onde poderia defender os interêsses da Standard Oil e assegurar o contato com seus rivais britânicos ; na Marinha, maior consumidor de petróleo dos EUA, a Secretaria ficou também com outro homem da Standard, que conseguiu um abatimento fiscal de 27,5% para que a indústria petrolífera “reconstituísse as reservas”; e no Departamento de Justiça, Herbert Brownell defendeu publicamente o abrandamento da lei antitruste; há testemunhas que atestam que John Foster Dulles, o secretário de Estado de Eisenhower, foi o membro principal da firma jurídica da Standard Oil of New Jersey.

Assim os fatos comprovam: a elite mundialista e globalista da qual o sr. Olavo fala nasceu nos EUA. Foi ela que gestou os mecanismos da economia global que temos hoje.

2.2 – O consórcio nasceu na América


O especialista em sociologia C. W. Mills, professor de Columbia, escritor da obra, “The Power Elite”, de 1956, descrevia o que estava acontecendo nos EUA, depois da segunda guerra:

“ Há uma elite do poder nacional, no topo da comunidade empresarial, governamental e militar...composta de homens cujas posições transcendem o ambiente comum de homens e mulheres...governam as grandes empresas e administram a máquina do Estado e exigem suas prerrogativas...”

Mills afirmava que este alto escalão do poder político e econômico nos EUA frequentemente circulava entre setores: dos altos postos nos negócios para cargos do governo, do gabinete da Casa Branca a conselhos de administração, dos comandos militares a política. Eles criaram na década de 50 uma diretoria única para os Estados Unidos da América. Cabe lembrar que vivia-se o pós segunda guerra, contexto onde, por meio de mecanismos hábeis, foi imposto ao mundo o padrão dólar como base das trocas econômicas mundiais. Não é preciso insistir muito neste aspecto para entendermos a que isso levou senão a hegemonia dos bancos americanos sobre as finanças mundiais.

Que o sr. Olavo ignore estes fatos não nos surpreende. O fato é que se hoje a elite global não é mais exclusivamente americana, ela nasceu americana, sob as asas do Estado americano e sob inspiração direta do ideário americano. A própria expansão da economia de mercado a todo globo – incluídos aí os países comunistas como a China e agora mais recentemente a Cuba – só foi possível graças a dinâmica capitalista surgida nos EUA, pós-guerra de secessão. Explico: na Europa vivia-se o ímpeto do neocolonialismo e imperialismo; Inglaterra, França, Alemanha buscavam consolidar seus interesses econômicos através da formação de zonas coloniais; estes impérios estariam fundados em protecionismo e domínio político direto. Não havia aí um projeto de extravasamento do poder econômico para além das fronteiras imperiais, dado que a política do equilíbrio europeu, que vinha do Congresso de Viena de 1815, buscava repartir o poder de forma a evitar uma nova guerra européia nos moldes da promovida por Napoleão. Os EUA, todavia, tinham um projeto diferente: o objetivo era extravasar o poder econômico para além das fronteiras, mundializando-o. Prova-o a missão do Comodoro Perry, que em 1854 forçou o Japão a abrir seus portos para os navios dos EUA, sob ameaça de bombardeio caso não o fizesse. Prova-o a extensão da zona de influência americana no Mar do Caribe para garantir acesso aos gêneros produzidos nas ilhas caribenhas; prova-o o estímulo a independência do Panamá, antes território colombiano, para a construção do Canal que liga o Atlântico ao Pacífico, favorecendo o comércio naval estadunidense. Foram os EUA, sua política internacional e sua elite econômica, que criaram o mercado globalizado e portanto o espaço para a construção de um poder global independente dos estados nacionais.

2.3- Bilderberg e CFR : clubes capitalistas.

O sr. Carvalho insiste em que o objetivo dos metacapitalistas globais é o socialismo. Vamos analisar a formação de dois clubes de metacapitalistas globais: o Bilderberg e o CFR. Fundado em 1954 pelo príncipe Bernhard, da Holanda, pelo primeiro-ministro belga Paul Van Zeeland, pelo conselheiro político Joseph Retinger e pelo presidente da multinacional Unilever na época, o holandês Paul Rijkens, o Clube Bilderberg é uma organização não-oficial que nasceu para promover a cooperação transatlântica e debater assuntos relevantes em nível mundial – o que, em plena Guerra Fria, equivalia a discutir a ameaça comunista e meios de expandir o modelo capitalista. O nome Bilderberg vem do hotel holandês que abrigou a primeira reunião, em 1954. O sucesso desse evento convenceu os seus organizadores a realizá-lo anualmente, em algum país europeu, nos Estados Unidos ou no Canadá. Ou seja: o Bilderberg foi forjado por capitalistas interessados em discutir meios de salvaguardar o capitalismo contra pretensões do comunismo internacional.

E o CFR?

O CFR tem seu quartel general na cidade de Nova Iorque – por que NY e não Moscou ou Nova Delhí? Será que sua sede não mantém relação com a elite nacional americana? - no edifício Harold Pratt House, uma mansão de quatro pisos na esquina de Park Avenue e a rua 68, que foi doada pela viúva do senhor Pratt, herdeira da fortuna da Standard Oil Rockefeller. O CFR se compõe de aproximadamente 3.000 membros da elite americana( Pura coincidência que estes sujeitos, ao mesmo tempo que fazem parte da elite nacional dos EUA, sejam, também, membros da elite global?).

Durante seus primeiros cinqüenta anos de existência, o CFR não apareceu nos meios de comunicação. Isto porque entre os membros do CFR figuram os mais importantes executivos do New York Time, o Washington Post, Los Angeles Time, o Wall Street Journal, a NBC, a CBS, a ABC, a FOX, Time, Fortune, Business Week, US News & World Report. Quase todos os postos de trabalho do gabinete da Casa Branca são ocupados por membros do CFR. Todos estes dados provêm de um relatório publicado pelo próprio CFR, disponível para o público em seu site . Seria mais uma coincidência que a elite midiática americana controle um conselho para o poder global e que este conselho controle parte da Casa Branca? Será que realmente não existe nenhuma conexão orgânica entre sociedade americana, economia americana, poder americano e poder global articulado em torno do Bilderberg e CFR?

2.3 – Economia global e poder americano.

Um dos aspectos marcantes da globalização econômica é o poder que certas megaempresas possuem sobre o mercado mundial. Neste sentido as empresas americanas ocupam o primeiro lugar. Mas segundo o sr. Carvalho o poder global – que nasce aos poucos sob o influxo das elites que dominam estas empresas – nada tem a ver com os interesses nacionais dos EUA. Será? É o que veremos.
A- O complexo militar-industrial.

Comecemos falando da indústria bélica: na década de 90 o governo americano e Wall Street financiaram a fusão de empresas bélicas. O governo reembolsou as empresas os custos da transição. O objetivo? Dominar o mercado global de armas. 50 granes empresas viraram seis empresas. Em 2005 o lucro das cinco primeiras foi de 12 bilhões de dólares graças a guerra do Iraque e do Afeganistão; entre elas temos a Lockheed, Raytheon, Boeing, Northrop, e General Dinamics. Estas empresas estão, hoje em dia, negociando informações e armas com governos estrangeiros, joint ventures e até fusões com empresas no exterior. Quem pauta atualmente a reestruturação da indústria bélica mundial são estas empresas americanas. Existe agora uma superclasse industrial militar em que a maior parte dos membros são dos EUA e ocupam cargos no governo dos EUA. Atualmente esta superclasse atua até mesmo nos mercados do Pacífico, zona de influência chinesa: o fórum conhecido como Diálogo de Shangri-lá, que acontece desde 2002, é financiado pela IISS( Instituto internacional de estudos estratégicos, em português) que recebe verbas da Boeing, Northrop, BAE – empresa militar da Inglaterra – entre outras. O conselho do IISS tem como membros: David Ignatius, colunista do Washington Post; Pickering, que já foi vice presidente da Boeing, secretário de Estado dos EUA, e capitão da marinha americana; Robert Ellsworth, ex-deputado pelo Kansas, embaixador da Otan entre 1969 e 1971. É a elite americana a controlar um fórum global sobre armas e defesa militar.

Outra faceta do mercado de defesa militar – dominado pelos EUA – é a criação de empresas que fornecem mercenários – ex-militares americanos. As chamadas PMFs são hoje um padrão global geral. A blackwater é um exemplo disso: ela tem funcionários trabalhando em nove países, uma esquadrilha com mais de vinte aviões e vinte mil soldados. Hoje existem cerca de 35 PMFs nos EUA: Dyncorp, Halliburton, Vinnell, etc. A Vinnell atua na Arábia Saudita treinando a guarda nacional do Rei. Estas empresas atuaram fortemente na guerra do Iraque. Paul Bremer, administrador americano do Iraque, na época da ocupação do país pelas tropas americanas colocou as PMFs isentas de processo, colocando-as fora do alcance da lei. Isso permite que os EUA atuem transferindo tarefas miitares a empresas que não podem ser responsabilizadas pela lei internacional. Os soldados da Blackwater no Iraque recebem mais que os militares de carreira. Eles ganham em um mês o que militares ganham no ano. Hoje os EUA atuam em prol de uma privatização das forças armadas. A consequência disso é que, com isso, os estados nacionais poderão perder o monopólio da violência. Em suma, isso evidencia que a conspiração pelo fim dos estados nacionais é patrocinada por um estado nacional – EUA - com objetivos imperiais. Ainda que se possa retrucar que tais empresas não representam o estado americano seria ingenuidade negar que elas estão diretamente a serviço dele e são pagas por ele e comandadas por militares americanos do alto escalão.

B- O Carlyle Group



O Carlyle é a maior empresa de private equity do mundo que controla mais de 56 bilhões de dólares e tem filiais em 18 países. Empresas de private são fundos que compram participações em empresas com o fim de alavancá-las no mercado. Segundo Dan Briody, autor do livro “The Iron Triangle” o Carlyle, hoje, tornou-se o controlador do maior fluxo de caixa da economia global. Muita gente investiu dinheiro no Carlyle sem saber que estava investindo. Pelo Carlyler passaram grandes figuras da política americana: o ex-secretário de estado James Baker, o ex-secretário de defesa Frank Carlucci, o ex-diretor de orçamento da Casa Branca Dick Darman, o ex-chefe da comissão federal das comunicações, Willian Kennard, o ex-presidente da comissão de câmbio, Arthur Levitt. A sede do Carlyle fica em Washington entre a Casa Branca e o Capitólio. Sua influência sobre o establishment político americano é notório. Desde o 11 de setembro a empresa lucrou com a guerra contra o terrorismo. Ea investiu na U. S. information services( Usis) uma companhia particular de investigação que atua no departamento fedeal de aviação, nas alfândegas, e no ministério da defesa. Rubenstein, o maior acionista da Carlyle, forma, junt com seus sócios, uma poderosa rede global com a capacidade de investir dinheiro em países, mercados, setores, de apoiar candidatos em eleições pelo mundo, de participar de fóruns de definição de prioridades políticas, etc. A atuação da Carlyle deixa claro como existe nos EUA, uma sociedade entre políticos e megaempresários das finanças a moldar a política estadunidense no sentido de exportar, por exemplo, mecanismos de condução de mercado que favoreçam a facilidade das trocas financeiras globais que, evidentemente, favorecem o dólar e os grandes fundos de equity nas mãos da super-elite financeira dos EUA.

Parte 3- Gangsterismo político-econômico: a natureza profunda dos EUA.

A promoção dos interesses dos grandes capitalistas nos EUA só foi possível graças ao aumento do poder do presidente da república iniciada por A. Linconl já durante a guerra de secessão em meados do século 19. Segundo Nivaldo Cordeiro em “Linconl, de Spielberg”, artigo de 28 de janeiro de 2013, publicado no site mídia sem máscara:

“Lincoln é a figura chave na construção do Estado norte-americano. Seu legado político fez sucumbir o idealismo daqueles que apostavam na federação de fato, na “federação de reinos autônomos”. No lugar das liberdades federativas temos a União centralizadora e determinadora das formas jurídicas e políticas do existir. No momento, a grande ameaça é o Estado mundial, desejado por muita gente, inclusive por Obama, mas não se sabe muito bem qual o formato que terá. Os que lutam pelo Estado mundial ainda não têm a fórmula de implantação, mas seguem o caminho necessário da homogeneização dos marcos jurídicos nacionais, passo a passo, e da implantação da agenda da nova moral, anticristã. A nova moral mundial.”

Portanto, Linconl foi o fundador do modelo de Estado central norte americano, ponta de lança do Estado Mundial. É do estado americano que surgirá o estado global. Essa forma de Estado invasivo foi sendo forjada progressivamente ao longo do século 19 nos EUA onde os presidentes afirmaram sua primazia de vários modos, expandindo o executivo e seus cargos, aumentando seu orçamento e criando conceitos como privilégio executivo. Isso teve como consequência a construção do conceito de “Executivo Unitário”, base da administração do presidente G. W. Bush e fundamento do “patriot act” de 2001, elaborada em resposta ao 11 de setembro, que deu ao governo capacidades extraordinárias de investigação, onde o poder federal ganha a liberdade para vigiar as comunicações sem necessitar de autorização judicial. Toda essa evolução do poder federal dos EUA veio a tona com o que foi revelado pelo ex-técnico da Cia, Edward Snowden, a respeito do programa global de vigilância da NSA, programa esse que se vale dos dados de servidores de megaempresas web como apple, google, facebook(aliás, todas empresas americanas e com acionistas majoritariamente americanos). Hoje o poder federal dos EUA está associado diretamente a “Comunidade de Política Internacional de Washington”, onde são tomadas as decisões sobre política externa. O jornalista David Rothkopf, expôs esta realidade em sua obra “ Running the World”. Nela, Rothkopf, mostra como está òrgão é mais infuente que o congresso americano, no que tange a definir pautas de política internacional para o presidente. Dele faz parte um grupo selete e pequeno que ocupou ou ocupará postos no governo federal, sobretudo na segurança nacional: entre eles temos Kissinger, Rumsfeld, Brzezinski. Os membros desta Comunidade pertencem, também, ao CFR. E toda essa rede nos leva ao mundo das finanças. A Goldman Sachs, segundo o mesmo Rothkopf, obteve acesso aos altos escalões do governo federal americano, no sentido de assegurar seus negócios, graças a articulação feita por membros da Comunidade citada acima. Existe uma porta giratória; os forjadores de políticas financeiras norte americanas de impacto global que pertencem a Comunidade ou já foram membros de grupos financeiros, como a Goldman, ou virão a ser. Todos os recentes secretários do Tesouro Americano, ocuparam, posteriormente, cargos no mundo financeiro; o ex-secretário John Snow, na Cerberus; o ex-secretário Paul O' Neill, na Blackstone; o ex-secretário Lawrence Summmers, na D.E. Shaw; o ex-secretário Robert Rubin, no Citigroup. Em 2008 o “CEO” da Goldman era, ao mesmo tempo, o presidente do Conselho Consultivo de Informações Externas do presidente da república dos EUA!! Hoje a pauta das grandes corporações é a pauta do Estado americano. Não há mais diferença alguma. Kevin Phillips em sua obra “ Wealth and Democracy: A Political History of the American Rich” diz que o dinheiro está no sangue da política americana. Desde meados do século 19 o interesse dos endinheirados desempenham o papel de árbitro da agenda política do Estado. O sistema de doações as eleições nos EUA tem um efeito corruptor pois torna o candidato prisioneiro dos financiadores. Em 2008os principais candidatos a presidência precisaram arrecadar mais de 100 milhões de dólares para tocar suas campanhas. Os sujeitos que tem controle de megaempresas doam omas gigantescas e depois cobram a conta. As barreiras financeiras para o cargo mais alto do mundo – o de presidente dos EUA – são tão altas que é impossível que alguém as supere sem aliados ricos e poderosos do setor estatal e privado. Os dez maiores doadores para a campanha de Bush em 2004 foram: Morgan Stanley, Merril Lynch, Pricewaterhouse, UBS, Goldman Sachs, MBNA Corporation, Credit Suisse, Lehman Brothers, Citigroup e Bear Sterns.

O que os doadores ganharam? Acesso a altos funcionários, cargos na Casa Branca, participação direta em missões especiais, intervenções de funcionários americanos nos fóruns globais de economia para ajustar regras de mercado aos interesses destas empresas, esforços para evitar sanções comerciais as empresas, ajuda com a OMC para aumentar ou derrubar tarifas, etc.

Assim fica claro que o Consórcio Globalista – embora inclua interesses de megaempresários asiáticos e europeus também – é majoritariamente americano e majoritariamente apoiado e promovido pelo Estado americano. Os EUA prescrevem duas panacéias ao mundo: livre mercado e democracia. No entanto o que vemos, no mundo atual, é que quanto mais avança o livre mercado menos democracia existe. A China é um exemplo disto: mercado aberto combinado com ditadura de partido único (O que mostra que o capitalismo – quando quer e precisa – pode conviver com o comunismo). Nos EUA, a medida que o mercado cresceu, decresceu a democracia. Isto parece ser uma lei histórica: um modelo de capitalismo global não pode conviver com democracia. O que nos levaria, diretamente, a uma escravidão política global sem precedentes. Não estaria aí o erro cabal da análise – se é que podemos chamá-la disso – do sr. Olavo de Carvalho que só vê os riscos do comunismo e nunca os do capitalismo, jogando na conta do comunismo até mesmo aquilo que o capitalismo fez e faz?

Segundo o charlatão residente na Virgínia, não foi o capitalismo americano que se corrompeu a si mesmo mas a Rússia! Sim a Rússia é a culpada de tudo isso que expusemos acima:

“ Ao choramingar que foi corrompida pelo capitalismo americano, a Rússia esquece que foi ela que o corrompeu. Desde a década de 30, o governo Stálin, consciente de que a força da América residia “no seu patriotismo, na sua consciência ética e na sua religião” (sic), desencadeou uma gigantesca operação destinada, nas palavras do seu executor principal, Willi Münzenberg, a “corromper o Ocidente de tal modo que ele vai acabar fedendo”. Compra de consciências, envolvimento de altos funcionários em espionagem e negócios escusos, intensas campanhas de propaganda para debilitar as crenças morais da população e infiltração generalizada no sistema educacional acabaram por dar resultados sobretudo a partir da década de 60, modificando radicalmente a sociedade americana ao ponto de torná-la irreconhecível.” In: http://www.olavodecarvalho.org/textos/110307debate.html

Não, sr. Carvalho. Se Stálin fez alguma coisa foi se valer da corrupção moral já instalada nos EUA para daí efetivar seus planos. A corrupção moral dos EUA é inerente a sua história. Os marxistas no máximo pioraram o quadro e deram-lhe novas cores, mas não o criaram.

4- Conclusão

Que o sr. Olavo queira reclamar um caráter comunista ou fabianista para o que ele chama, impropriamente, de “globalismo ocidental” pois só há um globalismo e não três como já demonstramos aqui (http://libertoprometheo.blogspot.com.br/2014/12/a-farsa-dos-tres-globalismos-quebrando.html) é algo que pouco importa a nós. O fato é que se o que ele chama de elite globalista deseja um mundo nos moldes do ideário fabianista não teríamos, no caso, nada que possamos chamar de comunismo, mas sim um capitalismo intervencionista numa forma keynesiana. Sim, pois mesmo que entendamos que o fabianismo fosse inspirado num socialismo reformista e nas idéias de Stuart Mill, que sustentava que o bem-estar da maioria exigia o intervencionismo da máquina estatal, é preciso entender que as idéias da sociedade fabiana no século vinte evoluíram para uma terceira via entre o modelo soviético e o capitalismo liberal. E neste sentido elas tomaram um delineamento mais claro nas políticas keynesianas pós-1929.

As idéias fabianas de terceira via inspiraram, por exemplo, o movimento do partido Baath da Síria: o movimento visava fortalecer a economia nacional, o que levou o Estado sírio a dirigir o curso do desenvolvimento econômico, com o objetivo final de proporcionar um padrão mínimo de vida para todos. Todavia o que vemos agora na Síria de Assad, que é membro do partido árabe Baath? Uma luta das potências ocidentais – onde opera o “Globalismo Ocidental Fabiano” - contra as forças governistas de Assad, um presidente próximo – pasmem - das idéias fabianas! Por que o Consórcio Fabianista Mundial teria interesse em combater uma ponta de lança do fabianismo no Oriente Médio? A conta simplesmente não fecha e é precisa ser bastante idiota para acreditar na prestidigitação intelectual do sr. Carvalho.

Comunistas – como o sr Trotski – nunca viram no fabianismo, algo que pudesse ser chamado de comunismo. Trotsky pensava que o socialismo fabiano fosse uma tentativa subreptícia de salvar o capitalismo da fúria da classe operária. A esse respeito disse que “em toda a história do movimento trabalhista britânico houve pressão por parte da burguesia contra o proletariado através do uso de intelectuais, salas e igrejas socialistas, e owenistas, que repudiam a luta de classes, defendendo os princípios de solidariedade social, pregando a colaboração com a burguesia, e que se aproveitam e enfraquecem politicamente o miserável proletariado.”

Considerar que o projeto fabianista pode ser chamado, pura e simplesmente, de comunista, é o cúmulo.

Outro dado a considerar é que a sociedade fabiana entrou em declínio depois da década de 30. Ela continua a existir mas longe de ter a força de articulação que teve outrora nos meios políticos e econômicos. Seus principais membros hoje estão dentro do partido trabalhista inglês de Tony Blair. Ela trabalhou e muito pela implementação do welfare state no pós segunda guerra. Mas hoje o quadro é outro: os grupos que orientam a economia e a política internacional – desde os salões do establishment americano – desejam sobretudo desregulamentação dos mercados, livre fluxo de dinheiro, flexibilização de leis trabalhistas, privatismo radical, etc. Estes grupos se articulam nos foros que expusemos acima, hoje lugares políticos muito mais importantes que parlamentos nacionais ou que a Fabian Society. Que estes grupos possam, aqui e ali, apoiar medidas estatais intervencionistas é só na medida em que seus interesses entram em jogo. Os grupos econômicos precisam do estado e do poder político sem o qual nada se fez ou faz na história. Um grande produtor de laranjas precisará que se cobrem impostos e com eles se construam estradas, ferrovias e portos para escoar sua produção. Um grande investidor de capital precisa de um governo trabalhe pela derrubada de barreiras alfandegárias garantindo o livro fluxo do dólar.

Os mega-empresários globais são todos fabianos como quer Olavo? Isso é algo que não podemos responder. Empresários com idéias fabianas existem. Se todos os megaempresários capazes de manejar a economia global o sejam é outra questão. Só uma investigação poderia responder esta pergunta. Olavo não tem essa investigação a mão. Ele tem apenas um palpite, e uma interpretação dos fatos que remonta a guerra fria, logo uma interpretação anacrônica. Ele desconsidera que depois de 1991, com a queda da URSS, não existe mais uma bipolaridade mundial e que o capitalismo já não precisa incorporar reformas sociais para tirar da cabeça do trabalhador o encanto com o socialismo marxista. Ele desconsidera que todos os esforços do governo Reagan e Thatcher foram para viabilizar a ideologia do mercado contra o estado, quer dizer, o neoliberalismo. Não, é claro, que nessa fase neoliberal o Estado tenha sido dispensado de suas funções. Ele, na verdade, passa a ter novas funções em razão de uma nova demanda: criar o mercado global, o mundo global, e órgãos de poder global que sustentem o mercado e o mundo globalizados. Aliás é preciso dizer: nenhum liberal quer, de fato, menos estado. Isso é apenas retórica. No fundo liberais e neoliberais querem menos Estado aqui e mais ali. Até por que o capitalismo, onde quer que tenha se estabelecido, nestes últimos três séculos, só promoveu o crescimento do poder estatal. A modernização capitalista exigiu a extensão dos poderes de regramento do Estado. Mas, segundo o sr. Carvalho o problema fulcral é apenas o crescente poder do Estado e não o capitalismo. Contudo, historicamente, é impossível demonstrar que o crescente poder estatal ocorrido nos últimos três séculos nada tenha a ver com o capitalismo liberal. Logo, pouco importa se temos ou não empresários fabianos a manejar politicas globalistas. Provavelmente temos. Mas isso é irrelevante no atual quadro. O que é relevante é que o centro de poder empresarial e político que hoje orienta o globo está sediado nos EUA e encastelado em seu capitalismo. E isso ficou demonstrado acima.

Em suma é preciso destrinchar a forma de pensar do sr. Carvalho, descendo ao nível de sua retórica macartista – que vê perigo só no comunismo e nunca no capitalismo: seu modo de argumentar não difere muito daquele dos comunistas mais vulgares. Comunistas enxergam fascistas em todo lugar. O sr. Olavo enxerga comunista em todo lugar, até onde eles jamais poderiam estar. Ideologia costuma fracionar a realidade. Umas explicam tudo pelo econômico, ignorando o cultural, político, etc. Outras explicam tudo pelo biológico, ignorando o psíquico, o espiritual, etc. A ideologia do sr. Olavo explica tudo pelo comunismo. Assim se um capitalista financia governos socialistas, necessariamente ele quer, de alguma maneira, comunismo, nunca pode estar visando pura e simplesmente o lucro. Um comunista pode usar o capitalismo para promover o comunismo, mas um capitalista nunca pode pretender usar o comunismo para tirar vantagens capitalistas – nesse caso, e ele financia a China ele só pode estar querendo mesmo o comunismo. Ou seja: para o sr. Carvalho a única força onipresente na politica mundial é o comunismo. O capitalismo não existe mais em termos mundiais. Ou o que temos, a nível macro, são comunistas usando meios capitalistas ou pseudo-capitalistas trabalhando para o comunismo. A insanidade argumentativa do sr. Carvalho e seus próceres fica ainda mais clara quando se compreende a maneira como os discípulos de Olavo entendem o Foro de São Paulo: acreditam que os governos ligados ao Foro tem plena liberdade de ação como se pudessem ignorar o poder do capitalismo internacional. Aqui então cabe a pergunta: são os empresários que são fãs do socialismo ou são os socialismos que precisam se capitalizar. Quem está na mão de quem??? Estamos rumando para onde?

O motor da ação é o conhecimento. E o da ação política é o conhecimento de quem está ao nosso lado e quem está contra. Passar a idéia de que o inimigo é nosso amigo, ou de que ele não é tão perigoso assim é uma antiga arte da política. Reflita, caro leitor.

Apêndice: a solução católica e brasileira

Reproduzimos aqui a magistral definição do sr. Guilherme Koehler sobre o distributismo, a verdadeira solução para a questão política e social, logo das decrepitudes morais de socialismos, capitalismos e liberalismos, porque firmada na doutrina cristã, base cultural de nossa civilização luso-brasileira:

“ Distributismo não quer dizer redistribuição de riqueza por quem nos governa, se assim fosse era socialismo. É a distribuição natural de riqueza, pela repartição ampla dos meios de produção pela sociedade. Isto traduz-se concretamente naquilo a que chamamos empresas familiares ou pertencentes aos empregados, pequenas e médias empresas que actuam dentro do seu espaço local ou regional, pequenos negócios e trabalhos independentes. Chesterton afirmava que “capitalismo demais não significa capitalistas demais, mas sim capitalistas de menos”. O objectivo era o aumento do número dos que possuem propriedade privada, pela aquisição ou criação dos seus próprios meios de produção, em detrimento da dependência de salários. O distributismo vai contra a ordem económica globalizada e obscura, dependente do poder e de perigosa fragilidade a que hoje chamamos “livre iniciativa”. A ”livre iniciativa” quer dizer multinacionais e cresceu imoralmente sobre as costas de inúmeros trabalhadores pagos com salários de escravos, sem poderem sustentar as famílias, ou sequer poderem tratar da sua saúde. Não se defende que o Estado deva confiscar a riqueza dos senhores dos monopólios, sugere-se que estes façam justiça aos seus trabalhadores. O distributismo recusa liminarmente que as pessoas participem na cultura do capitalismo de massas. É um tipo de sociedade e nunca um programa de governo: procura romper com uma ordem económica dominada pelas multinacionais que se espalham pelo Mundo à procura de mão-de-obra escrava, devassam a moralidade pública e privada com os seus vícios, destroem a indústria nacional, usufruem de vantagens que lhes são dadas pelos governos. O distributismo é uma reacção justa contra os desvios morais e os excessos materiais condenados pelas Encíclicas Papais “Rerum Novarum” de Leão XIII e “Quadragesimo Anno” de Pio XI. Distributismo e socialismo são opostos, são antagónicos. O distributismo, em oposição ao socialismo, defende a distribuição da propriedade (não a redistribuição da riqueza), para atingir uma ampla partilha da propriedade e dos meios de produção, para conseguir uma verdadeira liberdade económica para o indivíduo e a família, as “células base” da sociedade. Estamos perante uma “terceira via”, isto é, o distributismo não é capitalismo, nem socialismo. O capitalismo e o socialismo são produtos do Iluminismo, são forças de modernidade e anti tradicionais; o distributismo busca a subordinação da actividade económica à vida humana integral, ou seja, à nossa vida espiritual, intelectual e familiar, conforme a Doutrina Social da Igreja.” In: http://libertoprometheo.blogspot.com.br/2014/06/o-distributismo-subordinacao-da.html




Nota explicativa: 

No decurso do texto dissemos que A tese olavista é de que com o globalismo ocidental, estaríamos rumando, necessariamente, ao comunismo. E o capitalismo onde fica nisso se é que ele ainda existe? É assim que ele, explica, por exemplo os financiamentos que grande banqueiros e empresários deram, ao longo do século 20, aos países socialistas ou a movimentos socialistas: no fundo eles desejariam estimular o socialismo pois o mesmo traria um mundo de controle do mercado onde só as grandes empresas teriam lugar( pode parecer inusitado mas é isso mesmo que ele diz: até onde sabemos o socialismo visa, nada mais que acabar com o regime de empresa privada; cabe perguntar ao Olavo como nesse mundo futuro visualizado pelos mega-banqueiros e empresários seria possível ir para o socialismo e, ao mesmo tempo, manter, indefinidamente, o setor privado de pé sem as naturais estatizações e coletivizações gerais almejadas pelos socialistas; ademais socialismo não visa apenas controle de mercado mas substituição da empresa privada pela estatal).Racionalizar essa alegação é impossível dada sua incompreensibilidade: seria como dar grana visando ajudar o projeto de quem eu sei que quer usar o dinheiro para me eliminar."

Aqui não pretendemos negar que houve financiamento de grupos capitalistas a movimentos socialistas; eles existiram, o que é fartamente documentado. O que rejeitamos é a explicação do sr. Olavo de que isso teria sido feito sob os auspícios de uma cosmovisão claramente socialista partilhada pelos financiadores. No nosso entendimento tais financiadores o fizeram por várias razões, entre os quais destacamos os interesses propriamente capitalistas. O objetivo do artigo não era esclarecer este ponto mas outro, qual seja a da relação entre capitalistas, globalistas e EUA. Num outro momento trataremos deste tema. 


Bibliografia

Briody, Dan. “The Iron Triangle”. Ebook, 2015.

Commager, Henry Steele. O espírito norte-americano: uma interpretação do pensamento e do caráter norte-americanos desde a década de 1880. São Paulo, Cultrix, 2000.

Domhoff, G. W. (2006). Who Rules America? Power, Politics, and Social Change (5th ed.). New York: McGraw-Hill.

Mills, C.Wright. Power, Politics and People.

Yergin, Daniel The Prize: The Epic Quest for Oil, Money, and Power. By. New York: Simon & Schuster, 1991

Phillips, Kevin. Wealth and democracy: a political history of the American rich. New York: Broadway Books, 2002.

Woodard, Calvin (December 1956)."THE POWER ELITE, by C. Wright Mills". Louisiana Law Review. Retrieved 14 February 2014.

Rothkopf, David. Running the World: The Inside Story of the National Security Council and the Architects of American. NY, Paperback, 2012.

Rothkpof, David. Superclasse. RJ, Agir, 2008.


Referências importantes à guisa de esclarecimento: