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sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

As mentiras de Gugu sobre o Catolicismo



Luiz Gonzaga de Carvalho, filho de Olavo e guru esotérico, mente sobre a Igreja Católica.


Pontifica Luiz Gonzaga de Carvalho Neto, vulgo Gugu, a.k.a. Sidi Ahmad, astrólogo errante que já viveu numa penca de cidades brasileiras e na Romênia, vez ou outra dando cursos de religião comparada inclusive aos católicos - sob indiferença ou omissão da "ortodoxia combativa" de seu pai que já teorizou sobre excomunhões e interditos nos quais teriam incorrido (segundo ele) cardeais e até o papa:
"Qualquer padre de ESQUINA na Igreja Ortodoxa, se perguntado: 'por que que a gente tem que ter essa religião aqui', responde 'é simples, meu filho, você tem essa religião pra você realizar um processo que se chama THEOSIS, deificação; você vai fazer isto, isto, isto e aquilo pra você participar da vida divina até atingir a perfeição espiritual.' É perfeitamente claro.
No Ocidente, eu não sei por que, a religião cristã como que se AFEMINOU. Ela virou um discurso de uma novela de amor, é uma história de amor escrita por mulheres para mulheres. As pessoas vão à Igreja no Ocidente para obter experiências emocionais, pedir ajuda, se sentir bem, 'hmmm...', percebe? Mas isso não é o projeto cristão. Se você olhar até a Idade Média, todo mundo sabia que cristianismo não era isso!
Entra numa igreja ortodoxa e pergunta para um padre ortodoxo o que é o cristianismo e por que você deve fazer aquilo. Ele vai te dizer exatamente assim: 'é assim, assim, assim, por causa disso, disso, disso, e o propósito desse negócio é você obter a natureza divina.'
A Igreja Ortodoxa é a única igreja em que a população masculina equivale à população feminina. A única igreja em que os homens vão é a Igreja Ortodoxa. Porque ela não é apenas esse discurso emocional diluído que se tornou a Igreja no Ocidente, onde todo mundo vai à Igreja para aplaudir, pra se sentir bem, pra sentir que Deus te ama e você ama a Deus... Para a maior parte dos homens, isso soa mais ou menos como conversa fiada, papo furado, bobagem. Se tem uma coisa que homem não gosta é quando ele percebe que alguém está tentando manipular as emoções dele, e é geralmente isso que se faz na maior parte das igrejas no Ocidente."
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É verdade que houve uma feminilização - mais espiritual que propriamente comportamental - da sociedade como um todo e também dos leigos e da hierarquia eclesiástica da Igreja Latina.
No entanto, a virilidade católica é um artigo que pode ser encontrado em não poucos meios, mesmo na "Igreja Conciliar" de alguns lugares como a África ocidental, Filipinas, Hungria, Lituânia e Polônia. Sem falar na pujante "Igreja do Silêncio" que está nas catacumbas da China e de outras tiranias vermelhas residuais do Sudeste Asiático e do Extremo Oriente.
Além delas, há as igrejas católicas sui iuris cujas sés primaciais estão no mundo eslavo ou no Levante, mas cujo rebanho de fiéis (diasporizados, "autóctones" ou neoconvertidos) no Ocidente, além de numeroso e crescente, é cada vez mais percentualmente representativo dentro dessas igrejas particulares, o que tende a sepultar de vez certo viés de "capelania étnico-tribal" ainda conservado e entranhado nas igrejas cismáticas "ortodoxas" - tão supostamente mais bem preservadas da corrupção do "Ocidente liberal" quanto mais estáticas e mumificadas no orgulho da própria sofisticação, satisfeitas demais com a "Igreja do primeiro milênio" a ponto de não poderem se dar conta das almas de todas as gerações, estamentos e etnias que não tenham testemunhado desde o berço o esplendor da "Lux Orientalis". No entanto, é de justiça dizer que faz-se hiato a esse narcisismo eclesial triunfalista e acomodado sempre que as demandas dos poderes terrenos queiram usar a pretensa autoridade eclesiástica "ortodoxa" para sanar os desarranjos culturais internos de sociedades indóceis ou imprestáveis à ambição desses poderes, ou ainda, para aliciar deslumbráveis e desiludidos dos países estrangeiros hostis ou desconfiados de tais poderes. Eis aí súmula da "igreja" celebrada pelo Gugu e por ele colocada como modelar para a Igreja Católica.
Ah, permitam-me espichar esse parêntese (não tão parêntese agora) sobre essa questão da idoneidade do cristianismo crido e ensinado por católicos e "ortodoxos": por pior que de fato esteja, a Igreja Católica conserva os poderes de seu Divino Fundador e dos Apóstolos e pode deliberar conclusivamente em concílio acerca de suas perplexidades - como feito em Trento, por exemplo. Na falta de um tal debate, o desenlace dele pode ser protelado indefinidamente até sem prejuízo duradouro e inclusive ordinariamente substituído pelo juízo monocrático apenas aconselhado do papa. Já os cismáticos não demonstram poder fazer isso faz quase mil anos e não podem e/ou não querem dar assentimento a uma instância permanente de arbitragem e deliberação que supra ou substitua a falta de um concílio dogmático, de modo que deveriam admitir alguma das seguintes proposições:
- o poder dos Apóstolos deixou de existir entre os cristãos remanescentes
- o poder dos Apóstolos é supérfluo, desnecessário ou inútil na vida corrente da Igreja,
- o poder dos Apóstolos só age dentro da vida corrente da Igreja servindo-se da espontaneidade ou da correlação de forças de seus membros, sem a possibilidade de mediação por uma inteligência institucional jurídico-burocrática perene e visível a arbitrar disputas e a sanar dúvidas
- a mediação de uma inteligência institucional jurídico-burocrática intrínseca e visível obstaculiza e até impossibilita as operações do poder dos Apóstolos na disciplina e no esclarecimento da Igreja, o que torna a situação atual (misto de dúvida, disputa e estagnação) preferível às definições e ao desenvolvimento trazidos por um concílio dogmático ou pelo papado
- não há cristãos remanescentes que possam usar o poder dos Apóstolos
- tal poder continua a existir mas escapou das mãos dos "ortodoxos" (quem sabe para as mãos de novos guardiões do Evangelho, ou até para as mãos de propositores de um "novo Evangelho" ora ignorado ou ainda por vir ...)
- o poder dos Apóstolos está aquém da plenitude na Terra sem um papa correligionário, o qual só poderia ser dado aos crentes nos dias de hoje com a ereção de um novo papado cuja sede e ocupante ainda não foram (se é que poderiam ser) acordados entre os "ortodoxos", o que TALVEZ pudesse acontecer na conclusão dos trabalhos de um concílio cuja qualificação dogmática teria de ter reconhecimento unânime entre tais crentes, concílio esse que aparentemente não estão em condições de reunir ou de concluir
- o poder dos Apóstolos só serve para exercer uma taxidermia eclesiástica reativa a Roma, e mesmo assim incapaz de produzir uma contestação ampla, cabal e unívoca capaz de sistematizar uma doutrina vinculante respaldada por medidas jurídicas, políticas e pastorais coerentes e sinérgicas contra os erros supostamente levantados desde o Vaticano, tornando assim a "Ortodoxia" um clube de queixosos (quanta virilidade, Gugu!) e de (olha que ironia!) protestantes
- o poder dos Apóstolos continua onde sempre esteve e estará: na Igreja Católica Apostólica Romana, assistida de forma integral pelo Divino Espírito Santo, de modo que só isso explicaria que a Roma ébria de liberalismo e modernismo é salva de si mesma sempre que se esforça para destruir a moral, a disciplina, a liturgia e a espiritualidade sustentados por séculos entre o povo fiel.
Portanto, antes que queiram renovar seus resmungos anti-romanos, os "ortodoxos" deveriam se dar ao trabalho de uniformizar (mediante um concílio com começo, meio e fim cujas conclusões sejam vinculantes e aceitas por todos eles) o entendimento e a aplicação correntes da doutrina do primeiro milênio de cristianismo e responsabilizar e penalizar de forma direta todos os culpados pelos desvios introduzidos pela "Roma novidadeira" que alegam detestar. Até lá, que tratem de ficar quietos - ou de fazer o "mea culpa" pela propagação de supostas heresias que se eximem de condenar com os meios mais eficazes hipoteticamente disponíveis - ou seja, o tal concílio de que falei ou um papado confiável e de reta doutrina restabelecido pelos verdadeiros crentes. Podem ir brincar de headbangers lá no Muro das Lamentações com os deicidas ...
Findo esse parêntese extenso, e considerados os casos talvez ainda promissores dessas igrejas particulares isoladas e precarizadas da recensão do Novus Ordo ou a ela subservientes, há ainda que se considerar também a reserva de espiritualidade varonil dos contingentes cada vez maiores e mais combativos do pessoal ligado à antiga liturgia latina - frequentada até mais pelos homens que pelas mulheres, e mais pelo destemor dos jovens que pelo saudosismo dos velhos.
No mais, que o Gugu trate de abandonar o sincretismo e o ecletismo tariqueiro antes que a barba dele fique completamente chamuscada pelos miasmas sulfúricos do Inferno, miasmas esses que já o estão deixando com a aparência de alguma coisa que lembra a hibridização da Marina Silva de porre com o Schuon usando Jequitilt. Até que ele desista de ser o Seu Madruga sufi que pensa que é a Bruxa do 71, é bom também que ele dê uma melhorada na acurácia das previsões astrológicas com as quais ele cativa elementos que tem mais dinheiro que juízo ou memória. Afinal, não são todos que se esqueceram do mapa astral por ele confeccionado no qual era vaticinada a vitória de Ciro Gomes nas eleições presidenciais de 2002.

Autor: Victor Fernandes. 


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Olavo "Lutero" de Carvalho

 Olavo mentiu para mim: Episódio 3!







Todos sabem que Olavo se jacta de ser católico mas todos sabem, também, que várias de suas falas destoam, radicalmente, do ensino magisterial da Igreja Católica. 

Mais uma vez o mago de Campinas mostra seu enorme compromisso com a ortodoxia romana ao postular uma doutrina estranha sobre a salvação, pois vejamos: 







O que Carvalho diz, é próximo demais da visão forense de salvação, postulada por Lutero. O heresiarca alemão, responsável pelo movimento protestante, aduzia que a salvação viria somente pela fé, sem a necessidade de obras. O que Olavo assevera não é exatamente isso mas é próximo, muito próximo disso. Segundo Lutero, como somos pecadores e, mesmo depois da atuação da graça em nós pela fé, continuaremos a sê-lo( Lutero identifica pecado e concupiscência; na teologia católica concupiscência é apenas tendência ao pecado) então não poderemos entrar no céu senão por um decreto judicial da parte de Deus: Cristo nos cobrirá com o "manto da justiça" e o Pai, ao invés de olhar para nosso interior pecaminoso e impuro, olhará para o manto de Cristo, onde estão cravados seus méritos. Mesmo impuros, entraremos no céu por conta duma salvação puramente externa, jurídica, fiducial. 

Olavo diz quase o mesmo na primeira postagem: se nossas obras não forem suficientemente marcadas pelo amor de Deus e estiverem enxameadas de impurezas e de amor desordenado às criaturas, então Cristo usará essa má imitação dele por nós, contra os demônios, para nos salvar. Segundo Carvalho até aos demônios repugnará tal decisão arbitrária de Cristo que, mesmo sabendo de que o imitamos mal - o que equivale a dizer que não o imitamos -  nos dará a salvação sem mérito sobrenatural de nossa parte (ou seja, sem que estejamos imbuídos de obras de caridade, de amor  a Deus). Na postagem seguinte a coisa piora; ali ele tenta conciliar duas teses contrárias: a de que somos salvos só pela fé e a de que a fé sem obras é morta; a confusão é total pois quando São Paulo diz que o "justo viverá pela fé" não aduz que a pura fé, a pura confissão de Cristo, basta para a salvação. A argumentação de São Paulo na mesma epístola aos Romanos, onde fala de que o justo vive pela fé, mostra claramente que a fé de Abraão foi operativa: por que ele creu, agiu e ofertou o filho a Deus. A fé leva às boas obras. Essa contradição entre fé e obras só existe na insanidade herética dos protestantes, jamais no interior da doutrina católica. Ademais, a repulsa de São Paulo a certas obras, como via de salvação, se refere às obras antigas, às observâncias da antiga lei e não dos mandamentos da nova lei, trazida por Nosso Senhor Jesus Cristo.  Portanto, Olavo parte de uma premissa protestante, de um pressuposto luterano fundado num falso problema e numa irreal oposição entre salvação por fé e ou por obras, para avaliar a questão da redenção. 

A seguir o bruxo da Virgínia admite que o bem que fazemos não serve à nossa salvação mas apenas serva  para que Deus tenha um "pretexto" para nos salvar. Mais uma vez a heresia luterana se insinua. A doutrina católica admite que sem fé é impossível agradar a Deus mas entende, igualmente, que as obras nos mantém na graça, pois fomos salvos para praticar o que é bom; outrossim o homem, sem a graça, nada pode fazer de bom; a posição católica é clara: a fé nos redime pela graça e nos dá os meios sacramentais necessários para que façamos o bem que agrada a Deus e sem o qual não podemos ser salvos pois nada de impuro pode entrar no céu. Como diz o catecismo tridentino: 

“[…] Tudo atribuindo à Sua bondade [de Deus], agradecemos sem cessar Áquele que nos comunicou o Seu Espírito, por cuja valia nos encorajamos a chamar "Abba, Pai!". Depois, consideraremos, seriamente, o que nos toca fazer, e o que nos toca evitar, a fim de conseguirmos o Reino do céu. Com efeito, Deus não nos chamou para a inércia e preguiça, porquanto chegou até a dizer: ‘O Reino do céu cede à violência, e são os esforçados que o arrebatam’ [Mt 11,12]. E noutra ocasião: ‘Se queres entrar para a vida, observa os Mandamentos’ [Mt 19,17]. Por conseguinte, aos homens não lhes basta pedirem o Reino de Deus, se de sua parte não houver zelo e diligência para o alcançar; precisam pois, colaborar vigorosamente com a graça de Deus [1Cor 3,9], e manter-se no caminho que conduz ao céu” [ Catecismo Romano. Edições Serviço de Animação Eucarística Mariana. Tradução de Frei Leopoldo Pires Martins, O. F. M. Pg 526-527.]


 A tese do "pretexto" é semelhante à da redenção judicial de Lutero pela qual alguém é salvo apesar de suas más obras, ou apesar da insuficiência de caridade de suas boas obras, por um decreto divino que usa o manto de Cristo como pretexto jurídico. Comparem a afirmação de Lutero à de Carvalho: 

“Se és um pregador da graça, então pregue uma graça verdadeira, e não uma falsa; se a graça existe, então deves cometer um pecado real, não fictício. Deus não salva falsos pecadores. Seja um pecador e peque fortemente, mas creia e se alegre em Cristo mais fortemente ainda…Se estamos aqui (neste mundo) devemos pecar…Pecado algum nos separará do Cordeiro, mesmo praticando fornicação e assassinatos milhares de vezes ao dia” [Carta a Melanchthon, 1 de agosto de 1521 - American Edition, Luther’s Works, vol. 48, pp. 281-82, editado por H. Lehmann, Fortress, 1963]

Embora haja uma diferença de tom e forma, em termos de conteúdo as alegações de Lutero e Carvalho são substancialmente próximas. 

Quem tiver olhos que veja: Olavo mentiu. Olavo não é católico. 







terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Francisco, o "Papa Angélico": A heresia joaquimista sentada no trono petrino





Ignazio Silone - italiano, escritor do livro " A aventura de um pobre cristão", sobre o Papa Celestino V, que reinou sobre a Igreja no fim do século 13 - desenvolveu na obra supracitada uma narrativa histórica sobre a tensão entre a liberdade individual e o poder da instituição. O livro traça o contexto da época, que foi um tempo conturbado. Depois da morte de Nicolau IV, em 1294, duas famílias romanas - os Colonna e os Orsini -  passaram a disputar o Papado. Transcorreram suspensões do conclave, surtos de peste, revoltas em Roma, etc. A igreja ficou 27 meses sem Papa. Em 1296 o rei de Nápoles invadiu o conclave e obrigou os cardeais a elegerem alguém. Pedro Morrone, monge idoso, foi eleito e virou o Papa Celestino V.  

Celestino V tinha passado a vida organizando sua comunidade monástica. Pouco entendia da organização burocrática dos estados pontifícios. Para fugir da Cúria transferiu a sede apostólica para Nápoles. Pressionado pelas ambições reais e da cúria romana, Celestino renunciou perante os cardeais, após três meses e voltou a sua vida de penitência. Em seu lugar subiu ao trono pontifício Bonifácio VIII. 

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Ignazio Silone
A eleição de Celestino foi recebida com expectação na época. Durante o século 13 as teses do monge calabrês, Joaquim de Fiore, ganhavam adeptos em várias frentes. Fiore ficara famoso por suas idéias referentes a um esquema triplo de desenvolvimento da história: haveria três eras, a primeira, do Pai, marcada pelo antigo testamento; a segunda, a do Filho, marcada pela prevalência da Igreja Católica e a terceira, a do Espírito Santo, que substituiria a Igreja Hierárquica por uma nova Igreja, pobre, espiritual e sob liderança dos monges. As heresias mais violentas, em termos de tentativa de derrubada da ordem eclesiástica e social da cristandade tiveram relação com as doutrinas joaquimitas. Os primeiros a serem contaminados pelos erros joaquimitas foram os chamados Espirituais Franciscanos, depois os Pseudo-apóstolos, os dolcinianos, etc. 

Sobre as heresias dos espirituais franciscanos - uma facção do franciscanismo que seguia o joaquimismo - é importante notar algumas delas como as seguintes: 

- O Anticristo viria em 1248, - marcaram-se, depois, outras datas - e ele seria o Imperador Frederico II., ou um Papa. 

- Haveria um grande castigo  no qual a maior parte dos homens seria eliminada. Mesmo boa parte dos frades franciscanos seria eliminada, sobrevivendo apenas um pequeno resto, que formaria o reino do Espírito Santo.

- Este reino espiritual seria o dos monges, que substituiria a ordem dos sacerdotes. Viria um grande Papa - o "Pastor Angelicus", que vários Papas pretenderam ser - e um grande Imperador que instaurariam o reino do Espírito Santo.

- Assim como a Igreja substituíra a Sinagoga, haveria uma Nova igreja espiritual, igualitária (sem hierarquia) e pobre, sem nenhuma propriedade, que substituiria a Igreja dotada de poder e riqueza. 

-  A lei de Deus seria abolida, sendo instaurada a lei do Amor.

O Papa Celestino conhecia os espirituais franciscanos, e os recebeu com benevolência quando ascendeu ao pontificado. Ouviu as suas queixas e os atendeu; desligou-os de toda obediência com relação à Ordem Franciscana, e autorizou-os a viver nos eremitérios para ali observar a Regra e o Testamento de São Francisco; deu a esse novos Eremitas o nome de Pobres Eremitas, e os colocou sob a proteção do Cardeal Napoleão Orsini. 

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Celestino V


Silone caracteriza Celestino V como um "homem que ignorava a grandeza politica da cristandade". Opondo-se a mentalidade do mesmo teríamos o Cardeal Caetani, futuro Bonifácio VIII, o homem da cúria. A Celestino V repudiava o fato de que a Igreja estivesse organizada como um poder. A Caetani era perfeitamente compreensível que ela fosse um poder, sendo ela não mais um pequeno rebanho, como outrora nos tempos apostólicos, mas uma comunidade supranacional, a maior do mundo. Celestino V queria e acreditava poder governar a Igreja apenas com o pai nosso. Caetani sabia que isto não era suficiente. 

Celestino pensava ser a ambição do poder, o desejo de mando, o problema essencial das relações humanas. Diria o mesmo: " Servir-se de poder? Que ilusão traiçoeira. O poder é que se serve de nós. O poder é como um cavalo difícil de governar.Ele segue seu próprio caminho ou, melhor dito, o que ele consegue seguir. Não se pode exigir que um cavalo voe. É necessário dar-se por contente quando se permanece sobre a sela". O poder é a fonte do mal: " a fonte de todos os males da Igreja encontra-se na tentação do poder", dirá Celestino; ele irá asseverar que "ambição e fome de poder são uma espécie de possessão diabólica que corrói a alma, abala-a, perde-a. Também quando procuramos o poder com boas intenções. A tentação do poder é a mais diabólica na qual o homem pode cair. Satanás provou com ela o próprio Cristo. E o que não conseguiu com Cristo obteve com seus representantes. Esta tentação é mais perigosa que a dos sentidos e ela sucumbem muitos varões castos".

A consequência lógica da mentalidade de Celestino V era aquela que Silone soube retirar com clareza em sua obra: "é impossível ser papa e ser um bom cristão". 

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Joaquim de Fiore anunciava a vinda de dois anjos ou mensageiros de uma nova era para o mundo, e a de um papa angélico, parecido com a "pomba de Noé' que prenunciava a vinda de um novo tempo. Os contemporâneos do século 13 viram em São Francisco e São Domingos, os dois anjos e, em Celestino V, o papa angélico. Uma visão milenarista dominou as mentes no século 13 e 14. Os espirituais franciscanos viam Celestino como aquele que iria conduzir a humanidade aos tempos da Igreja primitiva e, quiçá, aos primórdios da humanidade quando ainda não havia entrado o pecado. Chegava ao fim a Igreja da Lei, nascia a Igreja do Espírito, pensavam. O reino de mil anos começaria.

Estes impulsos milenaristas decorriam, indiretamente, da novidade franciscana e mendicante. O ideal de pobreza, juntamente com outros conselhos evangélicos, estava  virando o símbolo da revolução. São Francisco com sua tônica na nova dimensão da pobreza trouxe a irrupção de novas forças. A vida em conformidade com Cristo é conformidade com o sofrimento de Cristo, não com Cristo-rei em sua glória. São Francisco criou uma forte identificação entre Cristo e o pobre, os humildes e sofredores. Mas o Cristo dos pobres não é o Cristo da hierarquia sacerdotal e régia, nem a cabeça do corpo místico de Cristo - a Igreja - e da humanidade. A evocação de São Francisco, de certo modo, desestabiliza a ordem social medieval baseada no poder de duas ordens (clero e nobreza) como funções do corpo social. E a idéia de Igreja dos Pobres terá consequências históricas impressionantes. Muito da retórica protestante anti-romana nasce da acusação contra o poder do Papa como um poder mundano, como um símbolo do anticristo; o mesmo diga-se das acusações lançadas contra a Igreja Católica pelos cismáticos orientais - ditos ortodoxos - bem explicitada no poema do Grande Inquisidor de Dostoiévisk que diferenciava o apelo de Cristo a liberdade pessoal do homem em face à inquisição e ao poder da Igreja; para Dostoiévisk o Catolicismo buscou "corrigir" a obra de Cristo que teria vindo a terra para que os homens amassem e cressem em Deus por causa de Deus e não por causa dos milagres, para que os homens tivessem fé não por causa da autoridade mas por convicção livre; para o escritor russo o Catolicismo se funda num pragmatismo político em face da humanidade, numa descrença de que se possa levar os homens a Cristo sem fazer uso do poder, da lei, etc. Dostoiévski afirma que, então, o Catolicismo é a negação do Cristo dado que ele teria apelado a pura liberdade espiritual do homem. Dentro destes enfoques, no que eles tem de comum, a ilação lógica é simples: o catolicismo deve ser superado e uma nova Igreja deve surgir. 

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É justamente aqui que entra a figura do Papa Francisco. Façamos um breve histórico. 

O nome Francisco para o novo Papa já vinha sendo defendido pela ala progressista antes do conclave que elegeu Bergoglio. E, ao defender o nome que o Papa devia assumir, defendiam também um programa : "Deponho esta férula de prata: como diz Marcos, não levem para a viagem nada mais do que um bastão. Deponho este chapéu anacrônico: mais do que um pastor, ele me mostra como um sátrapa oriental". Ele se desfolha como uma cebola: do anel de zafira, da cruz de ouro maciço, dos paramentos "luxuosos que deveriam render glória a Deus e se tornam ofensa para os pobres"( http://www.ihu.unisinos.br/noticias/518273-a-hora-impossivel-de-um-papa-francisco-i)

O trecho supracitado é da obra do padre Paolo Farinella que viveu em Jerusalém e que foi amigo do Cardeal Martini. Em 2000, publicou o romance "Habemus Papam, Francesco I", que seria um papa da "caridade e comunhão". Isso demonstra que houve, nos subterrâneos da Igreja, uma conspiração para que este pontificado de Francisco, eleito para cumprir um papel pré-definido, acontecesse. Francisco foi eleito para fazer o joaquimismo sentar-se no trono de Pedro.

Logo após a eleição, Francisco fez questão de romper, de certo modo, com a cúria romana indo morar na Casa Santa Marta. Um gesto parecido com o de Celestino V que foi viver em Nápoles, longe da burocracia pontifícia.( http://www.acidigital.com/noticias/o-papa-francisco-explicou-por-que-mora-na-casa-santa-marta-95263/). 

Ao invés do tradicional anel de ouro, usado pelos papas para designar sua excelsitude enquanto sucessor de Pedro, Francisco adotou o anel de prata( http://veja.abril.com.br/mundo/papa-francisco-usara-anel-de-pescador-de-prata/).

Francisco, por estas e outras, encarna a velha idéia do "Papa Angélico".

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Voltemos a Silone, autor do livro sobre Celestino V. Ignazio Silone fora militante do PCI - partido comunista italiano. Tendo virado secretário geral do PCI, tornou-se membro do Komintern tendo ido várias vezes a URSS na década de 30. Nestas viagens ficou decepcionado com o regime stalinista e seu sufocamento das liberdades, sua imoralidade, crueldade, etc. Em 1937 ele escreveu um romance na Suíça onde manifestou seu descontentamento com o comunismo. Na obra tocara na possibilidade de subistituir o fascismo pelo comunismo, na Itália; o personagem principal do romance, um comunista dissidente, perseguido por Moscou, que se fantasia de padre para sobreviver, afirma que de nada valeria trocar fascismo por comunismo pois seria o mesmo que trocar a inquisição negra pela vermelha, e que o socialismo burocrático, assim como o fascismo, iria perseguir sem piedade todos os que se atrevessem a pensar de forma livre. Silone foi um dos primeiros pós-marxistas, que abandonando o modelo soviético, continuava a crer na utopia. No livro que escreveu sobre o papa Celestino V a idéia era recuperar a utopia, sob novos moldes. Silone acreditava que uma síntese entre o melhor do cristianismo e o melhor do comunismo seria a base para esta nova utopia: ela seria baseada num sentimento cristão de fraternidade e numa inclinação para com os pobres e fracos; com isso se salvaria a essência do cristianismo - presente no Pai Nosso -  e do socialismo. Cristianismo visto como reino da fraternidade universal e não como religião institucional e dogmática; socialismo como mística do homem e da humanidade e não como burocracia. Um novo socialismo cristão: era nisso que Silone pensava. 

E não é nisso que Francisco pensa? 

Não é isso que Francisco tenta realizar quando chama o MST a Roma? ( http://www.mst.org.br/2016/11/04/joao-pedro-stedile-comenta-encontro-dos-movimentos-populares-com-papa-francisco.html)

Não é isso que Francisco postula, uma nova era de fraternidade universal, sem base na fé católica, mas num ideal genérico de direitos humanitários quando vai a ONU discursar sobre o papel dos governantes no combate a pobreza, sem referência aos seus deveres quanto a reconhecerem o reinado de Jesus Cristo e o poder de sua Igreja na terra? (http://noticias.cancaonova.com/especiais/pontificado/francisco/discurso-do-papa-francisco-na-onu/). 

Não é a destruição da Igreja da lei, dos canônes, a Igreja da ordem, para dar lugar a nova Igreja do Amor, que Francisco tenta realizar, ao relativizar postulados eternos, abrindo espaço para este humanitarismo socialista-libertário?(https://fratresinunum.com/2016/11/14/bombastico-cardeais-divulgam-carta-e-questionamentos-sobre-amoris-laetitia-que-francisco-se-negou-a-responder/)

Não restam mais dúvidas de que Francisco é o eixo do neo-joaquimismo, dos delírios milenaristas heréticos que acreditam poder recriar o paraíso perdido nesta terra de exílio, com base numa síntese diabólica entre catolicismo e o reino deste mundo, representado pelos poderes e movimentos globais atrelados ao humanismo progressista, ao socialismo liberal, e ao ideário maçônico da Religião do Homem, Homem entronizado no lugar do Deus Trindade, Homem que se assentará no Trono de Deus para ser adorado no lugar dele.

Rafael G. de Queiroz. 


Referências bibliográficas

Boni, Luis Alberto. De Aberlardo a Lutero; estudos sobre filosofia prática na Idade Média. EDIPUCRS, Porto Alegre, 2003. 

Silone, Ignazio. L' avventura d'un povero cristiano. Milano, 1968. 

Souza, J. A eleição de Celestino V em 1294 e a crise da Igreja no final do século 13". In: Veritas 39(1994), n.155, p 481-498.